Sou filho de retirantes, nascido
em Fortaleza que também é terra natal de minha mãe; meu pai é da
cidade de Campo Maior, cidade interiorana que acolhera-me desde meu primeiro
ano de vida até o terceiro. Lamentavelmente eles me levaram pra Minas Gerais
aos três anos, sem a oportunidade de conhecer o povo da minha cidade natal. Gostaria
muito de ter crescido em Fortaleza, tenho até hoje em mim uma sensação de um sem-pátria.
Já tinha meus vinte anos de idade quando viajei com meus pais para Campo Maior,
depois de dezessete anos estávamos lá de novo. Não tinha nenhuma ideia do que
realmente era o nordeste, mais ao longo dos mais de 2100 km de distancia que
percorri de carro até lá, fui a cada cidade em que passava vendo e sentido na
pele que aquelas terras tinham algo de muito maravilhoso a me oferecer; e não
estava errado.
Já era noite quando chegamos a Teresina e
fomos presenteados pela mãe natureza com uma torrencial chuva de verão que
perdurou até os oitenta quilômetros que nos separava de Campo Maior. Chegamos à
Fazenda Pendência (era assim que se chamava nosso cantinho de terra), já não
chovia mais, à luz da brasa da fogueira fomos recebidos pelos anfitriões, já
estavam sob o efeito da cachaça, nos recepcionavam com muita alegria e
cordialidade sertaneja, resolvi dormir logo para poder xeretar naquele sertão
logo que os primeiros raios solares iluminassem o capim seco. O primeiro dia
foi magico, o pasto com sua vegetação rasteira estavam completamente seco,
porém contrastava com o orvalho da chuva da noite anterior, a grande poça de
agua que parecia conter todas as pestilências terrestres estava repleta de
porcos de cor ruça, o gado espalhado no pasto estava esquelético, os cabritos
pareciam que suportavam bem e vida rustica que lhes era oferecida por aquela
vegetação espinhosa e traiçoeira.
Resolvi gastar um pouco da
energia matutina andando de bicicleta pelo pasto, percorrendo a trilha que os
carros faziam da entrada da fazenda até entrada da casa, era uma distancia
considerável, eu e meu primo disputavamos uma corrida sem sentido, o ar seco e
o sol forte já me sufocava, entretanto, os infindáveis mandacarus, as arvores finas
e ainda perenes e um solo avermelhado prendiam hipnoticamente minha atenção; cerca
cinco minutos foi o suficiente para que minhas bochechas e pescoço suplicassem
por sombra. Comíamos os saborosos peixes do nosso açude, tejus de carne seca e
uma espécie de codorna daquelas bandas, eram pescados e caçados pelos meus
tios, sem contar o boi que relutei para não acompanhar seu abatimento a
machadadas; os pés de seriguela esbanjavam abundância daquela frutinha verde, amarela,
vermelha, enquanto que, debaixo da sombra dos cajueiros, caídos no chão só
restava dos cajus aproveitar as saborosíssimas castanhas que sempre me deu água
na boca. Na hora da sesta as os homens com suas redes se apinhavam debaixo da
sombra dos dois enormes cajueiros que ficavam alguns metros a frente da varanda
da grande casa, só eram perturbados quando alguma criança corria atrás de um
leitãozinho que sempre corria rente ao cercadinho de arame farpado que
contornava a casa.
A algumas horas do pôr-do-sol
todos meus tios, primos, os conhecidos da família, e um tio-avô meu íamos jogar
futebol no ressecado tabuleiro (é assim que os sertanejos chamam a planície),
lembro que no processo de preparação do campo e instalação das traves feitas de
paus, removi do campo uma pedra avermelhada que continha embaixo um pequeno
escorpião, na hora tomei um grande susto e matei o bichinho, nunca tinha visto
um escorpião pessoalmente e sempre vi na televisão que seu veneno pode ser
letal. Ao mata-lo compreendi que aquele solo é mais inóspito e hostil do que eu
tinha imaginado. Eu sabia que de falasse do falecido aracnídeo era grande o
risco dessa, que foi uma incrível pelada rotineira de fim de tarde ,não
acontecer nem se que uma única vez, mais aquele bichinho me fez ter mais
vontade de socar meus pés naquela terra que eu já tinha por encantada; nunca
disse para ninguém do animalzinho.
Era sempre eu o que mais corria e
me acabava no futebol. As mulheres riam e filmavas aqueles homens voltando a
ser crianças. Além de mim e de minha família vieram de Minas Gerais mais seis famílias,
fazendo com que todos da família do Belizário (meu avô) se encontrassem numa
pelada pela primeira e talvez última vez. Quando o sol se punha era um frenesi
para encontrar um dos dois banheiros vazios; os chuveiros estavam sempre
desligados e a água vinha direto do poço artesiano da fazenda o que tornava
aqueles banhos inacreditáveis, sempre me restava ânimo para tomar um banho de
piscina após aquelas ducha regenerativa.
Nossas noites eram embaladas por uns,
sempre ébrios, sertanejos que tocavam forró ao som de um acordeão choroso, uma zabumba
frenética e um triangulo incansáveis que me faziam arriscar passos
desconsertados só para dançar com algumas daquelas linda garotas de pele
tostada e cheias fogo que apareciam não sei de onde para se remexer, curiosas
com os novos visitantes branquelos. Dançava até meu suor não me deixar mais
Aproveitei intensamente cada segundo
dos mais de quinze dias que lá passei, queria do fundo do coração ser campomaiorense,
sentia que meu corpo pedia para não mais sair dessa terra, ter uma vida frugal,
lutar todo dia para conseguir minhas provisões, conquistar uma bela piauiense
da pele sensual, atrativa e quente que lá tinha os montes, ter o sol como meu
ombro amigo e o céu cheíssimo de estrelas como a minha própria obra de arte na
qual nunca irei deixar de contemplar; mais o dia de ir embora chegou.
Na tarde do ultimo dia na Fazenda Pendência jogávamos
futebol com um céu completamente nublando, um vento intenso, úmido e frio batia
no meu rosto fazendo com que uma vontade sobre-humana de viver na terra da
Batalha do jenipapo me fizesse. Dava para ver nitidamente o deslocamento rápido
das nuvens, o vento soprava ainda mais forte e as gotas de chuva começaram a
cair com tanta violência que sentia dolorosas agulhadas geladas nas minhas
costas vermelhas e queimadas pelo sol.
Nesse momento senti que não
haveria forma mais perfeita do Piauí me dá sua amorosa despedida. A despedida
da parentada foi chorosa e os intermináveis quilômetros de volta foi de muita saudade.