segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

UM PARAÍSO CHAMADO CAMPO MAIOR


Sou filho de retirantes, nascido em Fortaleza que também é terra natal de minha mãe; meu pai é da cidade de Campo Maior, cidade interiorana que acolhera-me desde meu primeiro ano de vida até o terceiro. Lamentavelmente eles me levaram pra Minas Gerais aos três anos, sem a oportunidade de conhecer o povo da minha cidade natal. Gostaria muito de ter crescido em Fortaleza, tenho até hoje em mim uma sensação de um sem-pátria. Já tinha meus vinte anos de idade quando viajei com meus pais para Campo Maior, depois de dezessete anos estávamos lá de novo. Não tinha nenhuma ideia do que realmente era o nordeste, mais ao longo dos mais de 2100 km de distancia que percorri de carro até lá, fui a cada cidade em que passava vendo e sentido na pele que aquelas terras tinham algo de muito maravilhoso a me oferecer; e não estava errado.

 Já era noite quando chegamos a Teresina e fomos presenteados pela mãe natureza com uma torrencial chuva de verão que perdurou até os oitenta quilômetros que nos separava de Campo Maior. Chegamos à Fazenda Pendência (era assim que se chamava nosso cantinho de terra), já não chovia mais, à luz da brasa da fogueira fomos recebidos pelos anfitriões, já estavam sob o efeito da cachaça, nos recepcionavam com muita alegria e cordialidade sertaneja, resolvi dormir logo para poder xeretar naquele sertão logo que os primeiros raios solares iluminassem o capim seco. O primeiro dia foi magico, o pasto com sua vegetação rasteira estavam completamente seco, porém contrastava com o orvalho da chuva da noite anterior, a grande poça de agua que parecia conter todas as pestilências terrestres estava repleta de porcos de cor ruça, o gado espalhado no pasto estava esquelético, os cabritos pareciam que suportavam bem e vida rustica que lhes era oferecida por aquela vegetação espinhosa e traiçoeira.

Resolvi gastar um pouco da energia matutina andando de bicicleta pelo pasto, percorrendo a trilha que os carros faziam da entrada da fazenda até entrada da casa, era uma distancia considerável, eu e meu primo disputavamos uma corrida sem sentido, o ar seco e o sol forte já me sufocava, entretanto, os infindáveis mandacarus, as arvores finas e ainda perenes e um solo avermelhado prendiam hipnoticamente minha atenção; cerca cinco minutos foi o suficiente para que minhas bochechas e pescoço suplicassem por sombra. Comíamos os saborosos peixes do nosso açude, tejus de carne seca e uma espécie de codorna daquelas bandas, eram pescados e caçados pelos meus tios, sem contar o boi que relutei para não acompanhar seu abatimento a machadadas; os pés de seriguela esbanjavam abundância daquela frutinha verde, amarela, vermelha, enquanto que, debaixo da sombra dos cajueiros, caídos no chão só restava dos cajus aproveitar as saborosíssimas castanhas que sempre me deu água na boca. Na hora da sesta as os homens com suas redes se apinhavam debaixo da sombra dos dois enormes cajueiros que ficavam alguns metros a frente da varanda da grande casa, só eram perturbados quando alguma criança corria atrás de um leitãozinho que sempre corria rente ao cercadinho de arame farpado que contornava a casa.

A algumas horas do pôr-do-sol todos meus tios, primos, os conhecidos da família, e um tio-avô meu íamos jogar futebol no ressecado tabuleiro (é assim que os sertanejos chamam a planície), lembro que no processo de preparação do campo e instalação das traves feitas de paus, removi do campo uma pedra avermelhada que continha embaixo um pequeno escorpião, na hora tomei um grande susto e matei o bichinho, nunca tinha visto um escorpião pessoalmente e sempre vi na televisão que seu veneno pode ser letal. Ao mata-lo compreendi que aquele solo é mais inóspito e hostil do que eu tinha imaginado. Eu sabia que de falasse do falecido aracnídeo era grande o risco dessa, que foi uma incrível pelada rotineira de fim de tarde ,não acontecer nem se que uma única vez, mais aquele bichinho me fez ter mais vontade de socar meus pés naquela terra que eu já tinha por encantada; nunca disse para ninguém do animalzinho.

Era sempre eu o que mais corria e me acabava no futebol. As mulheres riam e filmavas aqueles homens voltando a ser crianças. Além de mim e de minha família vieram de Minas Gerais mais seis famílias, fazendo com que todos da família do Belizário (meu avô) se encontrassem numa pelada pela primeira e talvez última vez. Quando o sol se punha era um frenesi para encontrar um dos dois banheiros vazios; os chuveiros estavam sempre desligados e a água vinha direto do poço artesiano da fazenda o que tornava aqueles banhos inacreditáveis, sempre me restava ânimo para tomar um banho de piscina após aquelas ducha regenerativa.

Nossas noites eram embaladas por uns, sempre ébrios, sertanejos que tocavam forró ao som de um acordeão choroso, uma zabumba frenética e um triangulo incansáveis que me faziam arriscar passos desconsertados só para dançar com algumas daquelas linda garotas de pele tostada e cheias fogo que apareciam não sei de onde para se remexer, curiosas com os novos visitantes branquelos. Dançava até meu suor não me deixar mais

Aproveitei intensamente cada segundo dos mais de quinze dias que lá passei, queria do fundo do coração ser campomaiorense, sentia que meu corpo pedia para não mais sair dessa terra, ter uma vida frugal, lutar todo dia para conseguir minhas provisões, conquistar uma bela piauiense da pele sensual, atrativa e quente que lá tinha os montes, ter o sol como meu ombro amigo e o céu cheíssimo de estrelas como a minha própria obra de arte na qual nunca irei deixar de contemplar; mais o dia de ir embora chegou.

 Na tarde do ultimo dia na Fazenda Pendência jogávamos futebol com um céu completamente nublando, um vento intenso, úmido e frio batia no meu rosto fazendo com que uma vontade sobre-humana de viver na terra da Batalha do jenipapo me fizesse. Dava para ver nitidamente o deslocamento rápido das nuvens, o vento soprava ainda mais forte e as gotas de chuva começaram a cair com tanta violência que sentia dolorosas agulhadas geladas nas minhas costas vermelhas e queimadas pelo sol.

Nesse momento senti que não haveria forma mais perfeita do Piauí me dá sua amorosa despedida. A despedida da parentada foi chorosa e os intermináveis quilômetros de volta foi de muita saudade.

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